|---|---|
| Ergonomia geral | Estabelece princípios de adaptação do trabalho | Complementa a aplicação para abate e processamento de carnes | Avaliação do posto, tarefa e organização |
| Organização do trabalho | Considera ritmo, exigência, autonomia e conteúdo da tarefa | Trata das características específicas do trabalho em frigoríficos | Revisão de metas, velocidade e alternância |
| Pausas | Devem ser definidas conforme as exigências da atividade | Contém requisitos específicos para pausas no setor | Planejamento e registro das pausas |
| Ferramentas | Devem ser adequadas à tarefa e ao trabalhador | Dá atenção às ferramentas utilizadas no processamento | Facas afiadas, cabos adequados e manutenção |
| Frio | Deve ser considerado na avaliação das condições de trabalho | Possui requisitos específicos para ambientes artificialmente frios | Vestimentas, rodízio, pausas e controle ambiental |
| AEP e AET | Prevê avaliação ergonômica conforme a situação | Deve ser considerada nas atividades abrangidas pela norma | Diagnóstico técnico e plano de ação |
| LER/DORT | Busca prevenir sobrecarga física e organizacional | Enfrenta riscos típicos das linhas de produção | Controle de repetitividade, força e ritmo |
A aplicação da NR-36 não elimina a necessidade de observar outras normas, como NR-1, NR-6, NR-7, NR-12, NR-15 e, conforme o processo, NR-24 e NR-26.
Principais riscos ergonômicos nas linhas de abate
Repetitividade
A repetitividade ocorre quando o trabalhador realiza ciclos semelhantes durante grande parte da jornada. Em linhas de abate, ela pode envolver cortes, desossa, retirada de aparas, separação, inspeção, embalagem e movimentação de produtos.
A repetitividade, isoladamente, não determina uma doença. O risco depende da combinação com:
- força;
- postura;
- duração da exposição;
- velocidade;
- ausência de recuperação;
- vibração;
- frio;
- características individuais;
- organização do trabalho.
Aplicação de força
A força manual pode ser necessária para cortar tecidos, puxar peças, manejar caixas, movimentar ganchos ou operar equipamentos. O risco tende a aumentar quando a força é realizada com o punho desviado, o braço afastado do corpo ou o ombro elevado.
Também é necessário avaliar a força de preensão. Facas com cabo inadequado, escorregadio, muito fino ou incompatível com a mão podem exigir maior pressão dos dedos e da palma.
Posturas inadequadas
Entre as posturas frequentemente observadas estão:
- flexão ou rotação prolongada do tronco;
- elevação dos ombros;
- braços afastados do corpo;
- extensão ou desvio lateral dos punhos;
- permanência prolongada em pé;
- agachamentos frequentes;
- apoio assimétrico do corpo;
- alcance acima da linha dos ombros;
- pescoço inclinado para inspeção visual.
Frio
O trabalho em câmaras, salas de corte e áreas refrigeradas pode reduzir a destreza manual, aumentar a rigidez muscular e interferir na percepção de desconforto. O frio também pode levar o trabalhador a adotar posturas mais contraídas.
O controle deve considerar:
- temperatura do ambiente;
- velocidade do ar;
- tempo de exposição;
- umidade;
- vestimentas;
- possibilidade de recuperação térmica;
- adequação das luvas;
- compatibilidade entre proteção térmica e destreza manual.
Vibração
Equipamentos vibratórios podem contribuir para desconforto e sobrecarga nas mãos e membros superiores. A avaliação deve considerar intensidade, tempo de exposição, manutenção do equipamento, forma de empunhadura e necessidade de força adicional.
Medidas preventivas podem incluir manutenção, substituição de equipamentos, redução do tempo de exposição, alternância de tarefas e aquisição de ferramentas com características mais adequadas.
Movimentação manual de cargas
Caixas, bandejas e peças podem apresentar peso, formato, temperatura e estabilidade variáveis. A análise não deve considerar apenas o peso nominal, mas também:
- distância horizontal do corpo;
- altura de pega;
- frequência;
- distância percorrida;
- possibilidade de deslizamento;
- necessidade de torção;
- espaço disponível;
- existência de carrinhos ou esteiras;
- cooperação entre trabalhadores.
LER/DORT: definição e fatores associados
LER/DORT é uma denominação utilizada para um conjunto de afecções relacionadas a sobrecarga do sistema musculoesquelético, especialmente em membros superiores, pescoço, ombros, coluna e membros inferiores.
Os quadros podem envolver dor, fadiga, formigamento, perda de força, limitação de movimento e desconforto persistente. Entretanto, sintomas não devem ser utilizados isoladamente para estabelecer diagnóstico ocupacional.
O diagnóstico clínico deve ser realizado por profissional habilitado, considerando história clínica, exame físico, exposição ocupacional e outros fatores relevantes.
No frigorífico, a prevenção deve ocorrer antes do aparecimento de sintomas. Esperar que vários trabalhadores apresentem dor para modificar o processo representa uma abordagem tardia.
Fatores físicos
- repetição;
- força;
- posturas extremas;
- compressão localizada;
- vibração;
- frio;
- movimentação de cargas;
- contato com superfícies rígidas.
Fatores organizacionais
- ritmo excessivo;
- metas incompatíveis com a capacidade operacional;
- baixa autonomia;
- pausas insuficientes;
- falta de alternância;
- dimensionamento inadequado;
- horas extras frequentes;
- pressão por produtividade;
- comunicação deficiente;
- treinamento insuficiente.
Fatores psicossociais
A pressão contínua, a falta de previsibilidade, conflitos, assédio, baixa participação nas decisões e medo de relatar sintomas podem influenciar a percepção de dor, a recuperação e a adesão às medidas preventivas.
A avaliação desses fatores deve ser conduzida com metodologia apropriada, confidencialidade e participação de profissionais competentes.
AEP e AET em frigoríficos
A Avaliação Ergonômica Preliminar é uma etapa de identificação e análise inicial das situações de trabalho. Ela pode indicar que medidas simples são suficientes ou demonstrar a necessidade de uma investigação aprofundada.
A Análise Ergonômica do Trabalho é mais detalhada e deve examinar o trabalho real, não apenas o procedimento escrito. Pode incluir:
- análise documental;
- entrevistas;
- observação em diferentes turnos;
- filmagem técnica, quando autorizada;
- análise de ciclos;
- avaliação de posturas;
- estimativa ou medição de força;
- estudo de alcances;
- avaliação de ferramentas;
- análise de pausas;
- verificação de rodízios;
- avaliação de fatores ambientais;
- construção de recomendações;
- validação das soluções com os trabalhadores.
Hierarquia de controles
As medidas devem seguir uma lógica de prioridade.
1. Eliminação do risco
Sempre que possível, eliminar etapas desnecessárias, reduzir manipulações e retirar tarefas que não agregam valor.
2. Substituição
Substituir ferramentas, materiais, processos ou métodos por alternativas menos exigentes fisicamente.
3. Medidas de engenharia
São geralmente mais eficazes porque atuam na fonte do risco:
- ajustar altura de bancadas;
- reposicionar esteiras;
- instalar plataformas;
- reduzir alcances;
- automatizar movimentações;
- utilizar dispositivos de apoio;
- melhorar iluminação;
- adequar ferramentas;
- instalar sistemas de transporte;
- diminuir necessidade de torção;
- criar suportes reguláveis.
4. Medidas administrativas
Incluem:
- alternância de tarefas;
- pausas;
- adequação de efetivo;
- treinamento;
- manutenção;
- controle de horas extras;
- revisão de metas;
- acompanhamento de indicadores.
5. Equipamentos de proteção individual
Os EPIs são importantes, mas não substituem controles de engenharia e organização. Luvas, aventais, botas, proteção térmica e demais equipamentos devem ser selecionados conforme riscos específicos e possuir Certificado de Aprovação quando aplicável.
Pausas e alternância de tarefas
A pausa não deve ser tratada como concessão informal ou mecanismo de punição. Ela precisa estar prevista no planejamento da atividade e ser compatível com a exigência física, cognitiva e térmica.
A alternância também deve ser tecnicamente planejada. Trocar o trabalhador de uma tarefa repetitiva para outra tarefa igualmente repetitiva não reduz necessariamente o risco.
Um rodízio adequado pode alternar:
- grupos musculares;
- exigência de força;
- postura;
- intensidade;
- uso de ferramentas;
- demanda visual;
- exposição ao frio;
- responsabilidade operacional.
Ferramentas e facas
A faca é um dos principais instrumentos de trabalho em muitas operações. Uma ferramenta inadequada pode aumentar a força necessária, reduzir a precisão e elevar o risco de acidentes e distúrbios musculoesqueléticos.
A seleção deve considerar:
- tamanho da mão;
- formato do cabo;
- material e aderência;
- peso;
- equilíbrio;
- ângulo de uso;
- compatibilidade com a tarefa;
- facilidade de higienização;
- manutenção e afiação;
- uso com luvas.
A capacitação deve abordar o uso seguro, a manutenção, o armazenamento e os sinais de desgaste.
Organização do PGR conforme a NR-1
A NR-1 estabelece disposições gerais e diretrizes para o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. No frigorífico, os riscos ergonômicos devem ser identificados, avaliados e controlados dentro do gerenciamento de riscos ocupacionais.
O inventário de riscos deve representar as condições reais da empresa. Isso inclui setores, funções, grupos de exposição, tarefas, fontes de risco, medidas existentes e prioridades de intervenção.
O plano de ação deve definir:
- medida necessária;
- responsável;
- prazo;
- recurso;
- critério de conclusão;
- forma de verificação;
- evidência documental.
eSocial e o evento S-2240
O S-2240 é o evento do eSocial destinado ao registro das condições ambientais do trabalho, incluindo informações relacionadas à exposição a agentes nocivos para fins previdenciários, conforme os leiautes e regras vigentes.
É importante não apresentar o S-2240 como um formulário geral para registrar todos os riscos ergonômicos. A existência de risco ergonômico não significa automaticamente que haverá informação de agente nocivo no S-2240 ou direito à aposentadoria especial.
A empresa deve avaliar, com sua equipe de SST e contabilidade/previdência, quais informações são aplicáveis ao caso concreto. A documentação ergonômica — AEP, AET, inventário de riscos, plano de ação e registros de acompanhamento — pode ser relevante para demonstrar o gerenciamento realizado, mas não substitui os eventos específicos exigidos pelo eSocial.
Também devem ser observados, conforme a situação:
- S-2210, Comunicação de Acidente de Trabalho;
- S-2220, monitoramento da saúde