DORT e LER são agravos relacionados a sobrecarga, repetitividade, força, posturas inadequadas e organização do trabalho. A Análise Ergonômica do Trabalho (AET), prevista na NR-17, identifica causas e orienta controles documentados. Integrada ao gerenciamento de riscos da NR-1, a AET ajuda a reduzir adoecimentos, afastamentos, acidentes, passivos trabalhistas e decisões baseadas apenas em sintomas individuais.
Nota de veracidade: números de afastamentos e autuações variam conforme ano, metodologia, CNAE, classificação do benefício e fonte consultada. Por isso, este artigo não apresenta uma estatística específica de Mato Grosso sem referência oficial verificável. A empresa deve consultar bases atualizadas do INSS, do Ministério do Trabalho e Emprego e do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho antes de divulgar números regionais.
01O que são LER e DORT?
LER significa Lesões por Esforços Repetitivos. DORT significa Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho. Embora sejam expressões frequentemente utilizadas em conjunto, DORT é a denominação mais abrangente para alterações musculoesqueléticas associadas ou agravadas pelas condições de trabalho.
Os quadros podem envolver:
- ▸tendinites e tenossinovites;
- ▸epicondilites;
- ▸síndrome do túnel do carpo;
- ▸dor cervical;
- ▸lombalgia;
- ▸bursites;
- ▸lesões de ombro;
- ▸dores em punhos, mãos e dedos;
- ▸comprometimentos musculares;
- ▸neuropatias compressivas;
- ▸limitações funcionais relacionadas à atividade profissional.
Por esse motivo, a prevenção de DORT e LER não deve se resumir a palestras sobre postura ou à entrega de cadeiras. O método precisa examinar como o trabalho realmente acontece.
02Por que a AET é importante na prevenção de processos trabalhistas?
A AET é uma investigação técnica das situações reais de trabalho. Ela procura compreender a diferença entre:
1. o trabalho prescrito, descrito em procedimentos, cargos e instruções;
2. o trabalho real, executado diariamente pelos trabalhadores;
3. os resultados esperados pela organização;
4. as estratégias utilizadas para lidar com metas, imprevistos e limitações;
5. os riscos efetivamente presentes na atividade.
Em uma eventual reclamação trabalhista, documentos genéricos podem ser insuficientes para demonstrar que a organização conhecia, avaliava e controlava os riscos. Uma AET bem conduzida fornece evidências técnicas sobre:
- ▸tarefas analisadas;
- ▸população exposta;
- ▸exigências físicas e cognitivas;
- ▸mobiliário, máquinas e ferramentas;
- ▸movimentação de cargas;
- ▸repetitividade;
- ▸aplicação de força;
- ▸posturas;
- ▸pausas;
- ▸ritmo de trabalho;
- ▸medidas de prevenção;
- ▸responsáveis e prazos;
- ▸critérios de acompanhamento.
03Relação entre NR-1, NR-17 e DORT
NR-1 e o gerenciamento de riscos ocupacionais
A NR-1 estabelece disposições gerais e diretrizes para o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). O Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) deve refletir os perigos e riscos existentes nos estabelecimentos, considerando a realidade das atividades.
Para DORT e LER, a gestão deve reconhecer, quando aplicável:
- ▸exigência de força;
- ▸levantamento, transporte e descarga de materiais;
- ▸repetitividade;
- ▸posturas estáticas ou extremas;
- ▸compressão mecânica;
- ▸vibração;
- ▸mobiliário inadequado;
- ▸ritmo intenso;
- ▸insuficiência de pausas;
- ▸inadequação de ferramentas;
- ▸variações de jornada;
- ▸fatores organizacionais que aumentem a sobrecarga.
NR-17 e a análise ergonômica
A NR-17 trata da ergonomia e busca adaptar as condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, proporcionando conforto, segurança, saúde e desempenho eficiente.
A norma prevê a avaliação ergonômica preliminar e, quando necessário, a Análise Ergonômica do Trabalho. A AET é especialmente relevante quando:
- ▸a avaliação preliminar não esclarece adequadamente a situação;
- ▸há necessidade de aprofundamento técnico;
- ▸são identificadas inadequações;
- ▸existem acidentes ou doenças relacionadas ao trabalho;
- ▸há indicação decorrente do acompanhamento de saúde;
- ▸mudanças no processo alteram as exigências da atividade.
04O que deve ser analisado em uma AET para DORT e LER?
Uma AET voltada à prevenção de DORT e LER deve combinar observação técnica, diálogo com trabalhadores, análise documental e, quando pertinente, métodos específicos de avaliação.
1. Organização do trabalho
A organização influencia diretamente a exposição musculoesquelética. Devem ser avaliados:
- ▸duração da jornada;
- ▸distribuição de tarefas;
- ▸horas extras;
- ▸ritmo;
- ▸metas;
- ▸pressão temporal;
- ▸alternância de atividades;
- ▸autonomia;
- ▸pausas;
- ▸recuperação;
- ▸dimensionamento da equipe;
- ▸absenteísmo;
- ▸rodízio;
- ▸treinamento;
- ▸manutenção de máquinas;
- ▸ocorrência de picos sazonais.
2. Biomecânica ocupacional
A análise biomecânica deve observar:
- ▸amplitude articular;
- ▸flexão e extensão;
- ▸desvios de punho;
- ▸elevação dos braços;
- ▸rotação de tronco;
- ▸agachamentos;
- ▸permanência em pé;
- ▸permanência sentada;
- ▸aplicação de força;
- ▸empurrar e puxar;
- ▸preensão manual;
- ▸contato localizado;
- ▸vibração;
- ▸velocidade do movimento;
- ▸frequência e duração.
3. Ferramentas, máquinas e mobiliário
A AET deve verificar se os meios de trabalho são compatíveis com a tarefa e com os usuários. Exemplos:
- ▸peso e formato de ferramentas;
- ▸diâmetro e acabamento de empunhaduras;
- ▸necessidade de apertar ou segurar continuamente;
- ▸altura de bancadas;
- ▸alcance de comandos;
- ▸regulagens de cadeira e mesa;
- ▸espaço para membros inferiores;
- ▸posicionamento de telas;
- ▸iluminação;
- ▸reflexos;
- ▸ruído;
- ▸temperatura;
- ▸vibração de corpo inteiro ou mãos e braços.
4. Variabilidade e trabalho real
O trabalhador raramente executa a tarefa exatamente como ela aparece no procedimento. Ele pode:
- ▸improvisar apoio;
- ▸utilizar ferramentas alternativas;
- ▸mudar o posicionamento;
- ▸acelerar em períodos de demanda;
- ▸compensar a ausência de colegas;
- ▸trabalhar com equipamentos defeituosos;
- ▸interromper a pausa para cumprir meta;
- ▸executar tarefas adicionais não previstas.
05Como a AET contribui para reduzir afastamentos?
A AET contribui para a prevenção quando gera mudanças efetivas. Entre os controles possíveis estão:
Controles de engenharia
- ▸ajuste de altura de superfícies;
- ▸redução de alcances;
- ▸mecanização de movimentações;
- ▸melhoria de ferramentas;
- ▸instalação de dispositivos auxiliares;
- ▸redução de vibração;
- ▸reorganização do fluxo;
- ▸adaptação de comandos;
- ▸melhoria da iluminação;
- ▸adequação de assentos;
- ▸redução da necessidade de força.
Controles administrativos e organizacionais
- ▸alternância planejada de tarefas;
- ▸pausas compatíveis com a exigência;
- ▸dimensionamento adequado;
- ▸manutenção preventiva;
- ▸treinamento específico;
- ▸revisão de metas;
- ▸distribuição equilibrada de cargas;
- ▸gestão de horas extras;
- ▸acompanhamento de queixas;
- ▸retorno ao trabalho estruturado.
Medidas individuais
Medidas individuais podem complementar, mas não substituir, os controles coletivos e organizacionais. Exemplos:
- ▸ajuste personalizado do posto;
- ▸orientação de uso de equipamentos;
- ▸encaminhamento à avaliação de saúde;
- ▸adequação temporária de atividades;
- ▸acompanhamento de restrições;
- ▸educação sobre sinais precoces.
06AET, PCMSO e acompanhamento de saúde
O Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO), previsto na NR-7, deve ser planejado considerando os riscos ocupacionais identificados. A AET pode fornecer informações importantes para a atuação coordenada entre ergonomia, segurança e saúde ocupacional.
A empresa deve estabelecer fluxo para:
1. registrar queixas e sinais precoces;
2. orientar o trabalhador sobre busca de atendimento;
3. avaliar a relação entre tarefa e sintomas;
4. verificar necessidade de intervenção no posto;
5. acompanhar trabalhadores afastados;
6. analisar retorno ao trabalho;
7. reavaliar a exposição após mudanças.
O diagnóstico clínico e a conclusão sobre capacidade laboral são atribuições dos profissionais habilitados conforme sua formação e legislação profissional. A AET não substitui avaliação médica, fisioterapêutica ou psicológica.
07eSocial e o evento S-2240: o que realmente deve ser informado?
O evento S-2240 do eSocial é destinado ao registro de condições ambientais do trabalho e exposição a agentes nocivos, especialmente para fins de caracterização de aposentadoria especial, conforme as regras do leiaute e da legislação previdenciária aplicável.
É tecnicamente inadequado afirmar, de forma genérica, que todo risco ergonômico ou toda AET deve ser lançado no S-2240. A empresa precisa verificar:
- ▸versão vigente do leiaute;
- ▸obrigatoriedade aplicável;
- ▸agentes nocivos informados;
- ▸documentação previdenciária;
- ▸integração com LTCAT e demais documentos;
- ▸orientação do profissional de SST e do responsável pelo sistema.
Outros eventos, como o S-2210, relacionado à Comunicação de Acidente de Trabalho, e o S-2220, relacionado ao monitoramento da saúde do trabalhador, possuem finalidades diferentes. A empresa não deve utilizar um evento para substituir outro.
08Tabela comparativa: avaliação preliminar, AET e laudo médico
| Aspecto | Avaliação Ergonômica Preliminar | AET | Avaliação médica ocupacional |
|---|---|---|---|
| Objetivo | Identificar perigos e riscos iniciais | Aprofundar a compreensão do trabalho real | Avaliar saúde, diagnóstico e capacidade |
| Foco | Situação geral e triagem | Relação entre atividade, organização e exposição | Condição clínica individual |
| Observação do trabalho | Pode ser mais breve | Deve ser detalhada e contextualizada | Não substitui observação ergonômica |
| Resultado | Medidas iniciais e indicação de aprofundamento | Recomendações técnicas, plano e prioridades | Conduta clínica e ocupacional |
| Substitui os demais? | Não | Não | Não |
| Relação com DORT/LER | Aponta fatores de risco | Investiga causas e controles | Avalia sinais, sintomas e capacidade |
| Uso na prevenção | Identificação inicial | Planejamento de intervenções | Monitoramento da saúde |
09Quais documentos fortalecem a prevenção?
Nenhum documento isolado garante proteção jurídica. A consistência está na integração entre diagnóstico, decisão e execução. O conjunto pode incluir:
- ▸avaliação ergonômica preliminar;
- ▸AET;
- ▸inventário de riscos do PGR;
- ▸plano de ação;
- ▸registros de implementação;
- ▸atas de reuniões;
- ▸treinamentos;
- ▸evidências fotográficas;
- ▸ordens de serviço;
- ▸registros de manutenção;
- ▸análises de queixas;
- ▸PCMSO;
- ▸exames ocupacionais;
- ▸registros de afastamentos;
- ▸avaliações de retorno;
- ▸CAT, quando aplicável;
- ▸relatórios de acompanhamento;
- ▸revisão após mudanças de processo.
010Parecer técnico do responsável pela ergonomia
Conforme a responsabilidade técnica informada para este conteúdo, o Dr. André Luiz, Fisioterapeuta Especialista em Ergonomia, CREFITO-9, destaca que:
“A prevenção de DORT não deve começar quando o trabalhador já apresenta incapacidade. A AET precisa identificar a combinação entre repetição, força, postura, duração e organização do trabalho, transformando os achados em medidas verificáveis.”Essa orientação é coerente com a lógica preventiva da NR-17: avaliar a situação real, priorizar medidas e acompanhar sua eficácia. A frase não deve ser interpretada como diagnóstico individual nem como promessa de eliminação de todo afastamento.
A atuação do fisioterapeuta deve respeitar suas competências profissionais, os limites da avaliação realizada e a necessidade de articulação com médico do trabalho, engenheiro de segurança, técnico de segurança, psicólogo e demais profissionais envolvidos.
011Interface com fatores psicossociais
Embora o foco deste artigo seja musculoesquelético, fatores psicossociais podem intensificar a sobrecarga física. Pressão excessiva, baixa autonomia, falta de apoio, assédio, metas incompatíveis e pausas insuficientes podem alterar o ritmo e reduzir a recuperação.
A Dra. Cristiane Alves, Psicóloga, CRP 18-MT, ressalta:
“A análise de DORT deve considerar que dor, sofrimento psíquico, pressão temporal e ausência de suporte podem interagir. Isso não significa atribuir a causa a um único fator, mas compreender o trabalho de maneira integrada e sem culpabilizar o trabalhador.”A avaliação de fatores psicossociais deve ser feita com metodologia adequada, confidencialidade e respeito à legislação profissional. Não se deve utilizar questionário psicológico como substituto de AET ou concluir causalidade apenas com base em percepção subjetiva.
012Estatísticas do INSS e do MTE em Mato Grosso
Dados sobre afastamentos por doenças relacionadas ao trabalho devem ser interpretados cuidadosamente. As bases oficiais podem utilizar:
- ▸espécie do benefício;
- ▸diagnóstico ou grupo de CID;
- ▸nexo técnico;
- ▸município;
- ▸unidade federativa;
- ▸CNAE;
- ▸sexo;
- ▸faixa etária;
- ▸duração do benefício;
- ▸trabalhador com ou sem registro;
- ▸ano de concessão ou de emissão.