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Método SQR-20 na Avaliação Ergonômica: Como Aplicar nos Postos de Trabalho

Atualizado em 2026-08-087 min de leitura
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O SQR-20, frequentemente denominado SRQ-20 na literatura científica, é um instrumento de rastreamento de sintomas não psicóticos, como ansiedade, insônia, queixas somáticas e humor deprimido. No trabalho, pode apoiar a identificação coletiva de sinais de sofrimento mental, mas não substitui diagnóstico clínico, entrevista psicológica, avaliação ergonômica ou análise dos riscos psicossociais exigida pelo gerenciamento de riscos ocupacionais.

Nota terminológica: a sigla mais difundida internacionalmente é SRQ-20, de Self-Reporting Questionnaire – 20 items. Como “SQR-20” também é utilizado em buscas brasileiras, este artigo emprega as duas formas para facilitar a localização do conteúdo, sem alterar a denominação técnica do instrumento.

011. O que é o SQR-20/SRQ-20?

O SRQ-20 é um questionário breve de rastreamento desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde para investigar sintomas indicativos de transtornos mentais comuns, especialmente em contextos de atenção primária e pesquisas populacionais.

Ele contém 20 perguntas com respostas binárias, normalmente:

  • Sim;
  • Não.
As questões investigam sintomas percebidos em período recente, como:
  • Nervosismo;
  • Preocupação excessiva;
  • Tristeza;
  • Dificuldade de concentração;
  • Insônia;
  • Cansaço;
  • Dor de cabeça;
  • Tremores;
  • Desconforto gástrico;
  • Perda de interesse;
  • Dificuldade para tomar decisões;
  • Sensação de inutilidade.
O questionário não foi criado para identificar uma doença específica. Seu objetivo é indicar a possível presença de sofrimento psíquico relevante, permitindo que a pessoa seja encaminhada para avaliação profissional quando necessário.

O SQR-20 diagnostica depressão ou ansiedade?

Não. O resultado do SRQ-20 é um rastreamento, não um diagnóstico.

Um escore elevado pode estar associado a diferentes situações:

  • Sobrecarga de trabalho;
  • Problemas financeiros;
  • Conflitos familiares;
  • Doença física;
  • Uso de determinadas substâncias;
  • Luto;
  • Violência;
  • Assédio;
  • Falta de autonomia;
  • Exigências incompatíveis com os recursos disponíveis;
  • Condições clínicas que exigem avaliação médica.
Por isso, não é tecnicamente correto afirmar que determinado trabalhador “tem depressão” ou “tem ansiedade” apenas porque apresentou pontuação elevada.

022. Por que utilizar o SRQ-20 na saúde mental ocupacional?

A saúde mental relacionada ao trabalho precisa ser analisada em dois níveis:

1. Nível individual: como o trabalhador está se sentindo e funcionando;
2. Nível organizacional: quais condições de trabalho podem estar contribuindo para o sofrimento observado.

O SRQ-20 pode contribuir para o primeiro nível, desde que aplicado de maneira ética, voluntária, confidencial e tecnicamente supervisionada. Entretanto, ele não informa sozinho a causa do sofrimento.

Uma organização pode apresentar resultados elevados em determinado setor por diferentes motivos:

  • Metas excessivas;
  • Jornada prolongada;
  • Baixa previsibilidade;
  • Falta de pessoal;
  • Liderança abusiva;
  • Mudanças frequentes;
  • Falta de treinamento;
  • Violência de clientes;
  • Trabalho isolado;
  • Pressão por produtividade;
  • Insuficiência de pausas;
  • Exposição simultânea a riscos físicos, químicos, biológicos ou ergonômicos.
Portanto, o questionário deve integrar uma avaliação mais ampla do trabalho real.

033. Relação com a NR-1 e os riscos psicossociais

A NR-1 estabelece disposições gerais e diretrizes para o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, incluindo o Programa de Gerenciamento de Riscos — PGR.

As alterações recentes da NR-1 ampliaram a atenção regulatória aos fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho. A implementação deve ser acompanhada conforme os prazos, orientações oficiais e atos normativos vigentes do Ministério do Trabalho e Emprego.

É importante distinguir:

  • Perigo: fonte ou situação com potencial de causar dano;
  • Risco ocupacional: combinação entre probabilidade e severidade do dano;
  • Fator psicossocial: condição relacionada à organização, gestão, relações ou conteúdo do trabalho que pode produzir efeitos psicológicos, físicos ou sociais;
  • Sintoma: manifestação percebida pelo trabalhador;
  • Diagnóstico: conclusão clínica realizada por profissional habilitado.
O SRQ-20 avalia sintomas autorreferidos. Ele não substitui:
  • Inventário de perigos;
  • Identificação de fatores de risco;
  • Avaliação da exposição;
  • Classificação dos riscos;
  • Plano de ação;
  • Monitoramento das medidas de prevenção.

Exemplos de fatores psicossociais no PGR

Entre os fatores que podem ser investigados estão:

  • Excesso de demandas;
  • Baixo controle sobre o trabalho;
  • Falta de clareza de papel;
  • Conflitos de função;
  • Baixo apoio social;
  • Assédio moral ou sexual;
  • Violência relacionada ao trabalho;
  • Insegurança contratual;
  • Trabalho em turnos;
  • Jornadas extensas;
  • Falta de descanso;
  • Remuneração variável associada a pressão intensa;
  • Isolamento profissional;
  • Comunicação deficiente;
  • Mudanças organizacionais sem participação dos trabalhadores.
O questionário pode apontar que existe sofrimento, mas a investigação ocupacional precisa identificar quais condições organizacionais estão envolvidas.

044. Relação com a NR-17

A NR-17 trata da adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores.

Seu campo de aplicação inclui aspectos como:

  • Organização do trabalho;
  • Levantamento, transporte e descarga de materiais;
  • Mobiliário;
  • Máquinas e equipamentos;
  • Ferramentas;
  • Conforto ambiental;
  • Trabalho em teleatendimento;
  • Avaliação das situações de trabalho.
A organização do trabalho pode afetar diretamente a saúde mental. Elementos como ritmo, exigência de tempo, conteúdo das tarefas, exigências cognitivas, autonomia e comunicação devem ser observados na análise ergonômica.

Assim, o SRQ-20 pode ser utilizado como uma fonte complementar de informação, mas não deve ser apresentado como uma avaliação completa de conformidade com a NR-17.

Para aprofundar o tema, a empresa pode consultar a página de serviços de ergonomia da HC Ergonomia ou conhecer a estrutura de uma AET em Cuiabá.

055. O eSocial S-2240 tem relação com o SRQ-20?

O evento S-2240 — Condições Ambientais do Trabalho — Agentes Nocivos integra o eSocial e está relacionado ao registro de condições ambientais e exposição a agentes nocivos para fins trabalhistas, previdenciários e de SST.

Ele não é um formulário para envio do resultado do SRQ-20.

Também não é correto afirmar, de forma genérica, que toda resposta de questionário psicossocial deve ser lançada no S-2240. O tratamento depende do fato gerador, do enquadramento aplicável, dos leiautes vigentes e da orientação oficial do eSocial.

O SRQ-20 contém informação sensível de saúde. Seu resultado individual deve ser protegido e não deve ser convertido automaticamente em informação pública, relatório nominal de setor ou evento do eSocial.

O fluxo adequado costuma separar:

  • Dados individuais de saúde, sob confidencialidade profissional;
  • Dados agregados para avaliação coletiva;
  • Informações sobre condições de trabalho;
  • Registros do PGR;
  • Documentação de medidas preventivas;
  • Registros ocupacionais exigidos pelo eSocial, quando aplicáveis.
A empresa deve validar obrigações específicas com seu responsável por SST, médico do trabalho, contador ou profissional especializado em eSocial.

066. Como preparar a aplicação

Antes de distribuir o questionário, a equipe responsável deve responder a algumas perguntas.

6.1 Qual é o objetivo?

O objetivo pode ser:

  • Levantar indicadores coletivos;
  • Apoiar diagnóstico organizacional;
  • Complementar avaliação de riscos psicossociais;
  • Identificar necessidade de encaminhamento;
  • Avaliar tendências antes e depois de uma intervenção.
O propósito deve ser comunicado com clareza aos trabalhadores. Aplicar o instrumento sem explicar sua finalidade pode aumentar desconfiança e reduzir a qualidade das respostas.

6.2 Quem aplicará?

A aplicação deve ser coordenada por profissional qualificado e respeitar as atribuições profissionais. Em saúde mental, é essencial observar as regras éticas da Psicologia e a proteção das informações pessoais.

A aplicação de um questionário não transforma automaticamente o aplicador em psicólogo, tampouco autoriza qualquer pessoa a interpretar clinicamente os resultados.

6.3 Como garantir confidencialidade?

Boas práticas incluem:

  • Não solicitar nome quando ele não for necessário;
  • Evitar coleta de e-mail corporativo;
  • Não divulgar respostas individuais ao gestor;
  • Utilizar grupos com número suficiente de participantes;
  • Restringir acesso ao banco de dados;
  • Definir prazo de retenção;
  • Informar quem terá acesso;
  • Explicar como os resultados serão utilizados;
  • Observar a LGPD, especialmente quanto a dados pessoais sensíveis.
Pequenos grupos exigem cautela. Em uma equipe com poucos trabalhadores, mesmo um relatório sem nomes pode permitir identificação indireta.

6.4 O preenchimento deve ser voluntário?

A participação deve ser conduzida sem coerção indevida. A empresa pode realizar uma avaliação ocupacional planejada, mas deve informar a finalidade, o tratamento dos dados e os limites do instrumento.

O trabalhador não deve ser pressionado a responder de determinada maneira nem sofrer qualquer consequência por apresentar sofrimento psicológico.

077. Roteiro prático de aplicação

Etapa 1 — Planejamento

Defina:

  • Público-alvo;
  • Setores incluídos;
  • Período de aplicação;
  • Forma presencial ou digital;
  • Responsável técnico;
  • Método de proteção dos dados;
  • Critérios de análise;
  • Fluxo de encaminhamento.

Etapa 2 — Comunicação

Explique que:

  • O questionário não é prova de desempenho;
  • Não será usado para punição;
  • Não fornece diagnóstico sozinho;
  • As respostas devem refletir a experiência real;
  • O resultado coletivo orientará medidas preventivas;
  • Casos individuais podem exigir atendimento profissional.

Etapa 3 — Aplicação

O ambiente deve ser:

  • Reservado;
  • Sem supervisão direta do gestor;
  • Livre de interrupções;
  • Acessível;
  • Adequado para trabalhadores com diferentes níveis de escolaridade e familiaridade digital.
As instruções precisam ser padronizadas. Alterar a redação, explicar excessivamente cada pergunta ou induzir respostas prejudica a comparabilidade.

Etapa 4 — Consolidação

Os resultados devem ser organizados de forma agregada, considerando:

  • Taxa de participação;
  • Distribuição por setor;
  • Turno;
  • Cargo;
  • Unidade;
  • Tempo de empresa;
  • Outros recortes relevantes.
Recortes muito pequenos devem ser suprimidos ou agrupados para preservar a confidencialidade.

Etapa 5 — Interpretação

A análise deve considerar:

  • Contexto organizacional;
  • Perfil da população;
  • Método empregado;
  • Período de coleta;
  • Possíveis vieses;
  • Mudanças ocorridas na empresa;
  • Outros indicadores de saúde e segurança.
Não é adequado comparar automaticamente setores com funções muito diferentes sem analisar suas condições de trabalho.

Etapa 6 — Plano de ação

O resultado somente produz valor preventivo quando gera medidas concretas.

Exemplos:

  • Revisão de metas;
  • Redimensionamento de equipes;
  • Melhor definição de responsabilidades;
  • Treinamento de lideranças;
  • Canais de prevenção e resposta ao assédio;
  • Melhorias nas pausas;
  • Revisão de escalas;
  • Ajustes de mobiliário;
  • Redução de interrupções;
  • Apoio a trabalhadores expostos à violência;
  • Atendimento e encaminhamento adequados.

088. Escore: como interpretar corretamente

O SRQ-20 é normalmente analisado pela soma de respostas indicativas de sintomas. Entretanto, o ponto de corte pode variar conforme:

  • População estudada;
  • Objetivo da pesquisa;
  • Validação utilizada;
  • Contexto cultural;
  • Características da amostra;
  • Sensibilidade e especificidade desejadas.
Por isso, não existe um único número universal que determine, sozinho, se um trabalhador está doente.

Em estudos brasileiros, diferentes pontos de corte foram utilizados. A equipe deve informar qual referência adotou e não transformar a pontuação em classificação absoluta.

Interpretação recomendada

Resultado observadoInterpretação possívelConduta recomendada
Baixa frequência de sintomasMenor indicação de sofrimento no período pesquisadoManter prevenção e monitorar
Frequência intermediáriaNecessidade de observar contexto e tendênciasInvestigar condições de trabalho
Frequência elevada no grupoPossível sinal coletivo de sofrimentoPriorizar avaliação psicossocial e plano de ação
Resultado elevado individualNecessidade de atenção, sem diagnóstico automáticoOrientar busca de avaliação profissional
Respostas incompatíveis ou incompletasDados insuficientesNão concluir; revisar aplicação

O resultado deve ser interpretado com prudência. Um escore baixo não prova ausência de risco, assim como um escore alto não prova que o trabalho seja a única causa do sofrimento.

099. SQR-20, diretrizes da ISO 45003 e outros métodos

O SRQ-20 concentra-se em sintomas de sofrimento mental comum. Já instrumentos de riscos psicossociais podem avaliar dimensões relacionadas ao trabalho, como demandas, autonomia, apoio, liderança, justiça e insegurança.

O diretrizes da ISO 45003, por exemplo, é uma família de instrumentos voltada à avaliação de fatores psicossociais relacionados ao trabalho. Sua utilização precisa respeitar a versão, a autorização, a adaptação cultural e o método de interpretação adotado.

Comparação entre instrumentos

Instrumento ou métodoFoco principalIdentifica sintomas?Avalia organização do trabalho?Substitui entrevista clínica?
SRQ-20Sintomas de sofrimento mental comumSimNão diretamenteNão
diretrizes da ISO 45003Fatores psicossociais do trabalhoParcialmente, conforme dimensõesSimNão
Entrevista psicológicaHistória e funcionamento individualSimPode investigarNão necessariamente
AEPAvaliação ergonômica preliminarNão é seu foco principalSim, em situações iniciaisNão
AETAnálise aprofundada do trabalhoNão diretamenteSimNão
PGRGerenciamento de riscos ocupacionaisNãoSim, de forma sistemáticaNão

A escolha deve corresponder à pergunta que a empresa deseja responder.

01010. Parecer técnico sobre o uso ocupacional

Considerações da Dra. Cristiane Alves — Psicóloga do Trabalho, CRP 18-MT

A interpretação técnica atribuída à Dra. Cristiane Alves deve partir de um princípio essencial: sofrimento mental não pode ser reduzido a uma pontuação.

Em contexto ocupacional, o instrumento deve ser utilizado para ampliar a escuta sobre o trabalho e orientar medidas preventivas. A pessoa não deve ser rotulada, exposta ou responsabilizada individualmente por um resultado elevado.

A análise deve investigar se há padrões relacionados a:

  • Setores;
  • Lideranças;
  • Jornadas;
  • Processos;
  • Mudanças;
  • Violência;
  • Assédio;
  • Falta de recursos;
  • Pressão por produtividade.
A profissional também ressalta a necessidade de estabelecer encaminhamento para trabalhadores que demonstrem sofrimento importante, risco de agravamento ou necessidade de cuidado especializado. O questionário não deve ser aplicado se a empresa não tiver condições mínimas de acolher e orientar os participantes.

Considerações do Dr. André Luiz — Fisioterapeuta, CREFITO-9

Na perspectiva da ergonomia, a saúde mental precisa ser analisada junto às exigências físicas e cognitivas do trabalho.

Dor musculoesquelética, fadiga, falta de pausas, posturas sustentadas, repetitividade, pressão temporal e baixa

🧮

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