O SQR-20, frequentemente denominado SRQ-20 na literatura científica, é um instrumento de rastreamento de sintomas não psicóticos, como ansiedade, insônia, queixas somáticas e humor deprimido. No trabalho, pode apoiar a identificação coletiva de sinais de sofrimento mental, mas não substitui diagnóstico clínico, entrevista psicológica, avaliação ergonômica ou análise dos riscos psicossociais exigida pelo gerenciamento de riscos ocupacionais.
Nota terminológica: a sigla mais difundida internacionalmente é SRQ-20, de Self-Reporting Questionnaire – 20 items. Como “SQR-20” também é utilizado em buscas brasileiras, este artigo emprega as duas formas para facilitar a localização do conteúdo, sem alterar a denominação técnica do instrumento.
011. O que é o SQR-20/SRQ-20?
O SRQ-20 é um questionário breve de rastreamento desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde para investigar sintomas indicativos de transtornos mentais comuns, especialmente em contextos de atenção primária e pesquisas populacionais.
Ele contém 20 perguntas com respostas binárias, normalmente:
- ▸Sim;
- ▸Não.
- ▸Nervosismo;
- ▸Preocupação excessiva;
- ▸Tristeza;
- ▸Dificuldade de concentração;
- ▸Insônia;
- ▸Cansaço;
- ▸Dor de cabeça;
- ▸Tremores;
- ▸Desconforto gástrico;
- ▸Perda de interesse;
- ▸Dificuldade para tomar decisões;
- ▸Sensação de inutilidade.
O SQR-20 diagnostica depressão ou ansiedade?
Não. O resultado do SRQ-20 é um rastreamento, não um diagnóstico.
Um escore elevado pode estar associado a diferentes situações:
- ▸Sobrecarga de trabalho;
- ▸Problemas financeiros;
- ▸Conflitos familiares;
- ▸Doença física;
- ▸Uso de determinadas substâncias;
- ▸Luto;
- ▸Violência;
- ▸Assédio;
- ▸Falta de autonomia;
- ▸Exigências incompatíveis com os recursos disponíveis;
- ▸Condições clínicas que exigem avaliação médica.
022. Por que utilizar o SRQ-20 na saúde mental ocupacional?
A saúde mental relacionada ao trabalho precisa ser analisada em dois níveis:
1. Nível individual: como o trabalhador está se sentindo e funcionando;
2. Nível organizacional: quais condições de trabalho podem estar contribuindo para o sofrimento observado.
O SRQ-20 pode contribuir para o primeiro nível, desde que aplicado de maneira ética, voluntária, confidencial e tecnicamente supervisionada. Entretanto, ele não informa sozinho a causa do sofrimento.
Uma organização pode apresentar resultados elevados em determinado setor por diferentes motivos:
- ▸Metas excessivas;
- ▸Jornada prolongada;
- ▸Baixa previsibilidade;
- ▸Falta de pessoal;
- ▸Liderança abusiva;
- ▸Mudanças frequentes;
- ▸Falta de treinamento;
- ▸Violência de clientes;
- ▸Trabalho isolado;
- ▸Pressão por produtividade;
- ▸Insuficiência de pausas;
- ▸Exposição simultânea a riscos físicos, químicos, biológicos ou ergonômicos.
033. Relação com a NR-1 e os riscos psicossociais
A NR-1 estabelece disposições gerais e diretrizes para o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, incluindo o Programa de Gerenciamento de Riscos — PGR.
As alterações recentes da NR-1 ampliaram a atenção regulatória aos fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho. A implementação deve ser acompanhada conforme os prazos, orientações oficiais e atos normativos vigentes do Ministério do Trabalho e Emprego.
É importante distinguir:
- ▸Perigo: fonte ou situação com potencial de causar dano;
- ▸Risco ocupacional: combinação entre probabilidade e severidade do dano;
- ▸Fator psicossocial: condição relacionada à organização, gestão, relações ou conteúdo do trabalho que pode produzir efeitos psicológicos, físicos ou sociais;
- ▸Sintoma: manifestação percebida pelo trabalhador;
- ▸Diagnóstico: conclusão clínica realizada por profissional habilitado.
- ▸Inventário de perigos;
- ▸Identificação de fatores de risco;
- ▸Avaliação da exposição;
- ▸Classificação dos riscos;
- ▸Plano de ação;
- ▸Monitoramento das medidas de prevenção.
Exemplos de fatores psicossociais no PGR
Entre os fatores que podem ser investigados estão:
- ▸Excesso de demandas;
- ▸Baixo controle sobre o trabalho;
- ▸Falta de clareza de papel;
- ▸Conflitos de função;
- ▸Baixo apoio social;
- ▸Assédio moral ou sexual;
- ▸Violência relacionada ao trabalho;
- ▸Insegurança contratual;
- ▸Trabalho em turnos;
- ▸Jornadas extensas;
- ▸Falta de descanso;
- ▸Remuneração variável associada a pressão intensa;
- ▸Isolamento profissional;
- ▸Comunicação deficiente;
- ▸Mudanças organizacionais sem participação dos trabalhadores.
044. Relação com a NR-17
A NR-17 trata da adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores.
Seu campo de aplicação inclui aspectos como:
- ▸Organização do trabalho;
- ▸Levantamento, transporte e descarga de materiais;
- ▸Mobiliário;
- ▸Máquinas e equipamentos;
- ▸Ferramentas;
- ▸Conforto ambiental;
- ▸Trabalho em teleatendimento;
- ▸Avaliação das situações de trabalho.
Assim, o SRQ-20 pode ser utilizado como uma fonte complementar de informação, mas não deve ser apresentado como uma avaliação completa de conformidade com a NR-17.
Para aprofundar o tema, a empresa pode consultar a página de serviços de ergonomia da HC Ergonomia ou conhecer a estrutura de uma AET em Cuiabá.
055. O eSocial S-2240 tem relação com o SRQ-20?
O evento S-2240 — Condições Ambientais do Trabalho — Agentes Nocivos integra o eSocial e está relacionado ao registro de condições ambientais e exposição a agentes nocivos para fins trabalhistas, previdenciários e de SST.
Ele não é um formulário para envio do resultado do SRQ-20.
Também não é correto afirmar, de forma genérica, que toda resposta de questionário psicossocial deve ser lançada no S-2240. O tratamento depende do fato gerador, do enquadramento aplicável, dos leiautes vigentes e da orientação oficial do eSocial.
O SRQ-20 contém informação sensível de saúde. Seu resultado individual deve ser protegido e não deve ser convertido automaticamente em informação pública, relatório nominal de setor ou evento do eSocial.
O fluxo adequado costuma separar:
- ▸Dados individuais de saúde, sob confidencialidade profissional;
- ▸Dados agregados para avaliação coletiva;
- ▸Informações sobre condições de trabalho;
- ▸Registros do PGR;
- ▸Documentação de medidas preventivas;
- ▸Registros ocupacionais exigidos pelo eSocial, quando aplicáveis.
066. Como preparar a aplicação
Antes de distribuir o questionário, a equipe responsável deve responder a algumas perguntas.
6.1 Qual é o objetivo?
O objetivo pode ser:
- ▸Levantar indicadores coletivos;
- ▸Apoiar diagnóstico organizacional;
- ▸Complementar avaliação de riscos psicossociais;
- ▸Identificar necessidade de encaminhamento;
- ▸Avaliar tendências antes e depois de uma intervenção.
6.2 Quem aplicará?
A aplicação deve ser coordenada por profissional qualificado e respeitar as atribuições profissionais. Em saúde mental, é essencial observar as regras éticas da Psicologia e a proteção das informações pessoais.
A aplicação de um questionário não transforma automaticamente o aplicador em psicólogo, tampouco autoriza qualquer pessoa a interpretar clinicamente os resultados.
6.3 Como garantir confidencialidade?
Boas práticas incluem:
- ▸Não solicitar nome quando ele não for necessário;
- ▸Evitar coleta de e-mail corporativo;
- ▸Não divulgar respostas individuais ao gestor;
- ▸Utilizar grupos com número suficiente de participantes;
- ▸Restringir acesso ao banco de dados;
- ▸Definir prazo de retenção;
- ▸Informar quem terá acesso;
- ▸Explicar como os resultados serão utilizados;
- ▸Observar a LGPD, especialmente quanto a dados pessoais sensíveis.
6.4 O preenchimento deve ser voluntário?
A participação deve ser conduzida sem coerção indevida. A empresa pode realizar uma avaliação ocupacional planejada, mas deve informar a finalidade, o tratamento dos dados e os limites do instrumento.
O trabalhador não deve ser pressionado a responder de determinada maneira nem sofrer qualquer consequência por apresentar sofrimento psicológico.
077. Roteiro prático de aplicação
Etapa 1 — Planejamento
Defina:
- ▸Público-alvo;
- ▸Setores incluídos;
- ▸Período de aplicação;
- ▸Forma presencial ou digital;
- ▸Responsável técnico;
- ▸Método de proteção dos dados;
- ▸Critérios de análise;
- ▸Fluxo de encaminhamento.
Etapa 2 — Comunicação
Explique que:
- ▸O questionário não é prova de desempenho;
- ▸Não será usado para punição;
- ▸Não fornece diagnóstico sozinho;
- ▸As respostas devem refletir a experiência real;
- ▸O resultado coletivo orientará medidas preventivas;
- ▸Casos individuais podem exigir atendimento profissional.
Etapa 3 — Aplicação
O ambiente deve ser:
- ▸Reservado;
- ▸Sem supervisão direta do gestor;
- ▸Livre de interrupções;
- ▸Acessível;
- ▸Adequado para trabalhadores com diferentes níveis de escolaridade e familiaridade digital.
Etapa 4 — Consolidação
Os resultados devem ser organizados de forma agregada, considerando:
- ▸Taxa de participação;
- ▸Distribuição por setor;
- ▸Turno;
- ▸Cargo;
- ▸Unidade;
- ▸Tempo de empresa;
- ▸Outros recortes relevantes.
Etapa 5 — Interpretação
A análise deve considerar:
- ▸Contexto organizacional;
- ▸Perfil da população;
- ▸Método empregado;
- ▸Período de coleta;
- ▸Possíveis vieses;
- ▸Mudanças ocorridas na empresa;
- ▸Outros indicadores de saúde e segurança.
Etapa 6 — Plano de ação
O resultado somente produz valor preventivo quando gera medidas concretas.
Exemplos:
- ▸Revisão de metas;
- ▸Redimensionamento de equipes;
- ▸Melhor definição de responsabilidades;
- ▸Treinamento de lideranças;
- ▸Canais de prevenção e resposta ao assédio;
- ▸Melhorias nas pausas;
- ▸Revisão de escalas;
- ▸Ajustes de mobiliário;
- ▸Redução de interrupções;
- ▸Apoio a trabalhadores expostos à violência;
- ▸Atendimento e encaminhamento adequados.
088. Escore: como interpretar corretamente
O SRQ-20 é normalmente analisado pela soma de respostas indicativas de sintomas. Entretanto, o ponto de corte pode variar conforme:
- ▸População estudada;
- ▸Objetivo da pesquisa;
- ▸Validação utilizada;
- ▸Contexto cultural;
- ▸Características da amostra;
- ▸Sensibilidade e especificidade desejadas.
Em estudos brasileiros, diferentes pontos de corte foram utilizados. A equipe deve informar qual referência adotou e não transformar a pontuação em classificação absoluta.
Interpretação recomendada
| Resultado observado | Interpretação possível | Conduta recomendada |
|---|---|---|
| Baixa frequência de sintomas | Menor indicação de sofrimento no período pesquisado | Manter prevenção e monitorar |
| Frequência intermediária | Necessidade de observar contexto e tendências | Investigar condições de trabalho |
| Frequência elevada no grupo | Possível sinal coletivo de sofrimento | Priorizar avaliação psicossocial e plano de ação |
| Resultado elevado individual | Necessidade de atenção, sem diagnóstico automático | Orientar busca de avaliação profissional |
| Respostas incompatíveis ou incompletas | Dados insuficientes | Não concluir; revisar aplicação |
O resultado deve ser interpretado com prudência. Um escore baixo não prova ausência de risco, assim como um escore alto não prova que o trabalho seja a única causa do sofrimento.
099. SQR-20, diretrizes da ISO 45003 e outros métodos
O SRQ-20 concentra-se em sintomas de sofrimento mental comum. Já instrumentos de riscos psicossociais podem avaliar dimensões relacionadas ao trabalho, como demandas, autonomia, apoio, liderança, justiça e insegurança.
O diretrizes da ISO 45003, por exemplo, é uma família de instrumentos voltada à avaliação de fatores psicossociais relacionados ao trabalho. Sua utilização precisa respeitar a versão, a autorização, a adaptação cultural e o método de interpretação adotado.
Comparação entre instrumentos
| Instrumento ou método | Foco principal | Identifica sintomas? | Avalia organização do trabalho? | Substitui entrevista clínica? |
|---|---|---|---|---|
| SRQ-20 | Sintomas de sofrimento mental comum | Sim | Não diretamente | Não |
| diretrizes da ISO 45003 | Fatores psicossociais do trabalho | Parcialmente, conforme dimensões | Sim | Não |
| Entrevista psicológica | História e funcionamento individual | Sim | Pode investigar | Não necessariamente |
| AEP | Avaliação ergonômica preliminar | Não é seu foco principal | Sim, em situações iniciais | Não |
| AET | Análise aprofundada do trabalho | Não diretamente | Sim | Não |
| PGR | Gerenciamento de riscos ocupacionais | Não | Sim, de forma sistemática | Não |
A escolha deve corresponder à pergunta que a empresa deseja responder.
01010. Parecer técnico sobre o uso ocupacional
Considerações da Dra. Cristiane Alves — Psicóloga do Trabalho, CRP 18-MT
A interpretação técnica atribuída à Dra. Cristiane Alves deve partir de um princípio essencial: sofrimento mental não pode ser reduzido a uma pontuação.
Em contexto ocupacional, o instrumento deve ser utilizado para ampliar a escuta sobre o trabalho e orientar medidas preventivas. A pessoa não deve ser rotulada, exposta ou responsabilizada individualmente por um resultado elevado.
A análise deve investigar se há padrões relacionados a:
- ▸Setores;
- ▸Lideranças;
- ▸Jornadas;
- ▸Processos;
- ▸Mudanças;
- ▸Violência;
- ▸Assédio;
- ▸Falta de recursos;
- ▸Pressão por produtividade.
Considerações do Dr. André Luiz — Fisioterapeuta, CREFITO-9
Na perspectiva da ergonomia, a saúde mental precisa ser analisada junto às exigências físicas e cognitivas do trabalho.
Dor musculoesquelética, fadiga, falta de pausas, posturas sustentadas, repetitividade, pressão temporal e baixa