Resposta Direta (Em 100 palavras): A diferenciação entre LER/DORT (doença ocupacional) e patologia degenerativa comum é o ponto central das perícias médicas e cinesiológicas na Justiça do Trabalho. A Lei nº 8.213/1991 (art. 20, § 1º, 'a') estabelece expressamente que a doença degenerativa não é considerada doença do trabalho. No entanto, se o ambiente laboral tiver contribuído para o agravamento, aceleração ou manifestação precoce dos sintomas, o perito judicial e o juiz podem caracterizar a concausalidade (art. 21, I), responsabilizando a empresa civilmente. A única prova técnica capaz de afastar a concausa é a Análise Ergonômica do Trabalho (AET) prévia, demonstrando que as exigências biomecânicas do posto estavam dentro dos limites fisiológicos seguros.
1. Tabela Comparativa: LER/DORT vs. Patologia Degenerativa
A tabela abaixo compara os fundamentos médicos, periciais e jurídicos de cada condição:
| Critério de Avaliação | LER / DORT (Distúrbio Osteomuscular Ocupacional) | Patologia Degenerativa (Comum / Constitucional) |
|---|---|---|
| Definição Legal | Doença profissional ou do trabalho (Lei 8.213/91, art. 20) | Processo biológico de desgaste natural por idade ou genética |
| Origem Primária | Sobrecarga biomecânica contínua, repetitividade e fadiga | Envelhecimento tecidual, predisposição genética, sedentarismo |
| Exemplos Típicos | Tenossinovite de De Quervain, síndrome do túnel do carpo bilateral | Espondilodiscoartrose, protusão discal por desidratação, osteofitose (bico de papagaio) |
| Enquadramento Legal | Enseja estabilidade provisória (art. 118) e indenização civil | Não é considerada doença do trabalho (art. 20, § 1º, 'a') |
| Risco de Concausa | Nexo direto quando o posto não respeita a NR-17 | Alto risco de concausa se a empresa não tiver AET com medição de cargas |
| Critério Pericial de Causalidade | Critérios de Simonin, Penteado e Bradford Hill | Exames de imagem (RMN) demonstrando desgaste difuso multissetorial |
| Benefício Previdenciário | Espécie B91 (Auxílio por Incapacidade Acidentário) | Espécie B31 (Auxílio Previdenciário Comum) |
| Impacto no FAP da Empresa | Aumenta diretamente a alíquota do FAP, encarecendo a folha | Não afeta o índice de gravidade do FAP previdenciário |
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2. O Que Diz a Lei: A Proteção do Artigo 20 da Lei 8.213/91
O legislador brasileiro teve o cuidado de estipular limites claros na Lei de Benefícios da Previdência Social para evitar que qualquer dor natural do corpo humano fosse imputada à empresa:
Lei nº 8.213/1991, Art. 20, § 1º: "Não são consideradas como doença do trabalho: a) a doença degenerativa; b) a inerente a grupo de faixa etária; c) a que não produza incapacidade laborativa; d) a doença endêmica adquirida por segurado habitante de região em que ela se desenvolva [...]."
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3. Os Três Graus de Concausa e Seus Impactos Financeiros
Na perícia judicial do trabalho, quando o perito reconhece que a doença de base é degenerativa, ele deve graduar a participação do trabalho de acordo com a classificação doutrinária (adotada no TST):
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┌──────────────────────────────────────────────────────────┐
│ CLASSIFICAÇÃO DA CONCAUSA NA JUSTIÇA DO TRABALHO │
└────────────────────────────┬─────────────────────────────┘
│
┌─────────────────────┼─────────────────────┐
▼ ▼ ▼
┌──────────────┐ ┌──────────────┐ ┌──────────────┐
│ GRAU I (LEVE)│ │GRAU II(MÉDIO)│ │GRAU III(ALTO)│
│ Contribuição │ │ Contribuição │ │ O trabalho │
│ mínima/baixa │ │ equivalente │ │ foi o fator │
│ (10% a 25%) │ │ (50% / 50%) │ │ preponderante│
└──────────────┘ └──────────────┘ └──────────────┘
```
- Grau I (Leve - 10% a 25%): O trabalho apenas acelerou temporariamente a sintomatologia de uma patologia degenerativa avançada. Indenização e pensão limitadas a valores reduzidos.
- Grau II (Moderado - 50%): O posto de trabalho impôs esforço significativo que concorreu em igualdade de forças com o envelhecimento natural. Indenizações arbitradas pela metade.
- Grau III (Preponderante - 75% a 100%): A sobrecarga ergonômica foi tão grave que transformou uma alteração assintomática em lesão incapacitante aguda. Condenações pesadas com pensão vitalícia.
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4. Como o Perito do Juízo Avalia o Posto de Trabalho?
Durante a diligência pericial no local de trabalho (vistoria pericial), o perito judicial analisa os seguintes elementos para firmar sua convicção:
- A existência prévia da Análise Ergonômica do Trabalho (AET): Se a empresa apresenta uma AET histórica comprovando que a carga biomecânica estava dentro dos limites da ISO 11228 e da Equação de NIOSH, o nexo técnico é desconstituído.
- Tempo de Exposição e Cadência: O perito avalia a frequência dos movimentos em ciclos de minutos e segundos. Ciclos com mais de 30 ações por minuto são considerados de alta repetitividade.
- Ergonomia dos Postos Análogos: A vistoria de postos idênticos ocupados por outros colegas revela se há queixas generalizadas no setor ou se a patologia do autor é um caso isolado e constitucional.
- Pausas e Rodízios Reais: A comprovação documental de micropausas ergonômicas e rodízios efetivamente cumpridos afasta a hipótese de estresse tecidual cumulativo contínuo.
5. Quatro Casos Práticos de Perícias Reais em Mato Grosso
Caso 1: Operador de Caixa com Hérnia de Disco Lombar
- Alegação: O reclamante alegou que o trabalho em pé/sentado causou hérnia discal L5-S1.
- Resultado Pericial: O assistente técnico da empresa demonstrou com exames de imagem que o autor apresentava desidratação discal difusa em múltiplos níveis (L2, L3, L4 e L5), típica de degeneração congênita. Além disso, a AET comprovou que o posto de caixa possuía banco ergonômico regulável com certificação NR-17. Laudo: Nexo causal afastado integralmente.
Caso 2: Magarefe de Frigorífico com Síndrome do Túnel do Carpo
- Alegação: Dormência, perda de força e dor em punho direito na linha de corte bovino.
- Resultado Pericial: A empresa não possuía AET detalhada com cálculo de OCRA nem comprovou a concessão das pausas obrigatórias do Anexo II da NR-17. O perito constatou cadência de 48 cortes por minuto. Laudo: Nexo concausal Grau III caracterizado, com condenação em pensão mensal.
Caso 3: Motorista de Rodotrem na BR-163 com Lombalgia
- Alegação: Lesão na coluna lombar causada pela vibração e trepidação da rodovia.
- Resultado Pericial: A empresa apresentou laudo quantitativo de Vibração de Corpo Inteiro (VCI) demonstrando aceleração ponderada abaixo do Nível de Ação da NHO-06 e assento com suspensão a ar calibrada para o peso do condutor. Laudo: Improcedência da reclamatória trabalhista.
Caso 4: Auxiliar Administrativo com Bursite no Ombro
- Alegação: Dor ao digitar e manusear processos físicos e arquivos.
- Resultado Pericial: Perícia biomecânica evidenciou que a elevação do braço nunca ultrapassava 45 graus (zona de conforto postural). Ressonância Magnética apontou acrômio do tipo III (ganchoso), alteração anatômica congênita que estreita o espaço subacromial independentemente do trabalho. Laudo: Doença degenerativa / anatômica sem concausa.
6. Como Formular Quesitos Estratégicos para a Perícia
A formulação de quesitos pelo Assistente Técnico é a maior arma da empresa para delimitar a atuação do perito judicial:
- 1. Queira o Sr. Perito informar se os exames de imagem evidenciam alterações degenerativas pré-existentes, osteófitos marginais ou desidratação discal multissegmentar incompatíveis com lesão traumática aguda?
- 2. Queira o Sr. Perito esclarecer se no posto de trabalho do autor as ferramentas exigem aplicação de força isométrica sustentada superior aos limites preconizados pela norma ISO 11228-2?
- 3. Com base na Análise Ergonômica do Trabalho (AET) juntada aos autos pela reclamada, favor apontar objetivamente qual parâmetro de carga biomecânica ou cadência violou a Portaria MTP nº 423/2021.
- 4. Pode o Sr. Perito confirmar se os sintomas alegados pelo autor podem eclodir no dia a dia em decorrência de fatores extralaborais, como idade, alterações hormonais, atividades domésticas ou sedentarismo?
7. Conclusão e Serviços de Assistência Pericial da HC Ergonomia
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Veja também nosso comparativo sobre quem pode assinar a AET segundo a lei.
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Jurisprudência e Referências Científicas:
- Tribunal Superior do Trabalho (TST): Súmula nº 378 (Estabilidade Provisória e Doença Ocupacional).
- Tribunal Regional do Trabalho da 23ª Região: Precedentes sobre Concausa e Doença Degenerativa em Mato Grosso.
- Conselho Federal de Medicina: Resolução CFM nº 2.323/2022 (Normas Técnicas para Médicos Peritos).
- Manual de Aplicação da NR-17: Ministério do Trabalho e Emprego.