A ergonomia em frigoríficos baseada na NR-36 e NR-17 identifica e controla riscos como repetitividade, força, posturas inadequadas, frio, vibração e organização do trabalho, reduzindo a probabilidade de LER/DORT nas linhas de abate por meio de avaliação ergonômica, medidas de engenharia, pausas e acompanhamento da saúde dos trabalhadores.
01Introdução
As atividades realizadas em frigoríficos combinam diversos fatores capazes de sobrecarregar o sistema musculoesquelético: movimentos repetitivos, ritmo de produção elevado, uso de facas e equipamentos, exigência de força manual, transporte de cargas, permanência prolongada em pé, trabalho em ambientes frios e necessidade de manter atenção constante.
Nas linhas de abate e desossa, pequenas inadequações podem ser repetidas centenas ou milhares de vezes por jornada. Quando a tarefa exige força, velocidade e precisão simultaneamente, o risco ergonômico tende a aumentar, especialmente quando não há alternância de atividades, pausas adequadas ou manutenção correta dos instrumentos de trabalho.
A prevenção de LER/DORT em frigoríficos não depende apenas de orientar o trabalhador a “corrigir a postura”. O controle efetivo exige avaliar o trabalho real, modificar máquinas, bancadas, ferramentas, fluxo de produção e organização das tarefas, além de integrar as ações ao Programa de Gerenciamento de Riscos — PGR.
Em Mato Grosso, a relevância do tema é evidente pela presença de frigoríficos, unidades de processamento de carnes, transportadoras, empresas de armazenagem e cadeias agroindustriais em municípios como Cuiabá, Várzea Grande, Rondonópolis, Sinop, Sorriso, Tangará da Serra, Nova Mutum e Lucas do Rio Verde.
02O que é ergonomia em frigoríficos?
Ergonomia em frigoríficos é a aplicação de conhecimentos técnicos para adaptar o trabalho às características físicas, cognitivas e organizacionais dos trabalhadores. O objetivo é melhorar a segurança, a saúde, o conforto e o desempenho, sem transferir para o empregado a responsabilidade por problemas originados no projeto da atividade.
Em um frigorífico, a análise deve considerar, entre outros aspectos:
- ▸altura e profundidade das bancadas;
- ▸alcance dos materiais;
- ▸peso e formato das peças;
- ▸tipo, afiação e empunhadura das facas;
- ▸frequência dos movimentos;
- ▸força necessária para cortar, puxar ou separar tecidos;
- ▸velocidade da linha;
- ▸alternância entre tarefas;
- ▸duração e distribuição das pausas;
- ▸temperatura e velocidade do ar;
- ▸vibração e ruído;
- ▸movimentação manual de cargas;
- ▸número de trabalhadores por posto;
- ▸exigências de atenção e tomada de decisão;
- ▸treinamento e manutenção dos equipamentos.
03Relação entre NR-36 e NR-17
A NR-36 estabelece requisitos específicos de segurança e saúde no trabalho em empresas de abate e processamento de carnes e derivados. A NR-17 apresenta princípios e requisitos gerais de ergonomia aplicáveis à adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores.
As duas normas devem ser aplicadas de forma integrada.
A NR-36 aborda características próprias do setor, incluindo organização do trabalho, pausas psicofisiológicas, conforto térmico, ferramentas, máquinas, equipamentos, movimentação de produtos e condições ambientais.
A NR-17 fornece a base geral para avaliação e adaptação do trabalho, incluindo a necessidade de considerar a organização, os aspectos cognitivos, o levantamento e transporte de cargas e a realização da Avaliação Ergonômica Preliminar — AEP e, quando necessário, da Análise Ergonômica do Trabalho — AET.
Tabela comparativa
| Tema | NR-17 | NR-36 | Aplicação prática no frigorífico |
|---|---|---|---|
| Ergonomia geral | Estabelece princípios de adaptação do trabalho | Complementa a aplicação para abate e processamento de carnes | Avaliação do posto, tarefa e organização |
| Organização do trabalho | Considera ritmo, exigência, autonomia e conteúdo da tarefa | Trata das características específicas do trabalho em frigoríficos | Revisão de metas, velocidade e alternância |
| Pausas | Devem ser definidas conforme as exigências da atividade | Contém requisitos específicos para pausas no setor | Planejamento e registro das pausas |
| Ferramentas | Devem ser adequadas à tarefa e ao trabalhador | Dá atenção às ferramentas utilizadas no processamento | Facas afiadas, cabos adequados e manutenção |
| Frio | Deve ser considerado na avaliação das condições de trabalho | Possui requisitos específicos para ambientes artificialmente frios | Vestimentas, rodízio, pausas e controle ambiental |
| AEP e AET | Prevê avaliação ergonômica conforme a situação | Deve ser considerada nas atividades abrangidas pela norma | Diagnóstico técnico e plano de ação |
| LER/DORT | Busca prevenir sobrecarga física e organizacional | Enfrenta riscos típicos das linhas de produção | Controle de repetitividade, força e ritmo |
A aplicação da NR-36 não elimina a necessidade de observar outras normas, como NR-1, NR-6, NR-7, NR-12, NR-15 e, conforme o processo, NR-24 e NR-26.
04Principais riscos ergonômicos nas linhas de abate
Repetitividade
A repetitividade ocorre quando o trabalhador realiza ciclos semelhantes durante grande parte da jornada. Em linhas de abate, ela pode envolver cortes, desossa, retirada de aparas, separação, inspeção, embalagem e movimentação de produtos.
A repetitividade, isoladamente, não determina uma doença. O risco depende da combinação com:
- ▸força;
- ▸postura;
- ▸duração da exposição;
- ▸velocidade;
- ▸ausência de recuperação;
- ▸vibração;
- ▸frio;
- ▸características individuais;
- ▸organização do trabalho.
Aplicação de força
A força manual pode ser necessária para cortar tecidos, puxar peças, manejar caixas, movimentar ganchos ou operar equipamentos. O risco tende a aumentar quando a força é realizada com o punho desviado, o braço afastado do corpo ou o ombro elevado.
Também é necessário avaliar a força de preensão. Facas com cabo inadequado, escorregadio, muito fino ou incompatível com a mão podem exigir maior pressão dos dedos e da palma.
Posturas inadequadas
Entre as posturas frequentemente observadas estão:
- ▸flexão ou rotação prolongada do tronco;
- ▸elevação dos ombros;
- ▸braços afastados do corpo;
- ▸extensão ou desvio lateral dos punhos;
- ▸permanência prolongada em pé;
- ▸agachamentos frequentes;
- ▸apoio assimétrico do corpo;
- ▸alcance acima da linha dos ombros;
- ▸pescoço inclinado para inspeção visual.
Frio
O trabalho em câmaras, salas de corte e áreas refrigeradas pode reduzir a destreza manual, aumentar a rigidez muscular e interferir na percepção de desconforto. O frio também pode levar o trabalhador a adotar posturas mais contraídas.
O controle deve considerar:
- ▸temperatura do ambiente;
- ▸velocidade do ar;
- ▸tempo de exposição;
- ▸umidade;
- ▸vestimentas;
- ▸possibilidade de recuperação térmica;
- ▸adequação das luvas;
- ▸compatibilidade entre proteção térmica e destreza manual.
Vibração
Equipamentos vibratórios podem contribuir para desconforto e sobrecarga nas mãos e membros superiores. A avaliação deve considerar intensidade, tempo de exposição, manutenção do equipamento, forma de empunhadura e necessidade de força adicional.
Medidas preventivas podem incluir manutenção, substituição de equipamentos, redução do tempo de exposição, alternância de tarefas e aquisição de ferramentas com características mais adequadas.
Movimentação manual de cargas
Caixas, bandejas e peças podem apresentar peso, formato, temperatura e estabilidade variáveis. A análise não deve considerar apenas o peso nominal, mas também:
- ▸distância horizontal do corpo;
- ▸altura de pega;
- ▸frequência;
- ▸distância percorrida;
- ▸possibilidade de deslizamento;
- ▸necessidade de torção;
- ▸espaço disponível;
- ▸existência de carrinhos ou esteiras;
- ▸cooperação entre trabalhadores.
05LER/DORT: definição e fatores associados
LER/DORT é uma denominação utilizada para um conjunto de afecções relacionadas a sobrecarga do sistema musculoesquelético, especialmente em membros superiores, pescoço, ombros, coluna e membros inferiores.
Os quadros podem envolver dor, fadiga, formigamento, perda de força, limitação de movimento e desconforto persistente. Entretanto, sintomas não devem ser utilizados isoladamente para estabelecer diagnóstico ocupacional.
O diagnóstico clínico deve ser realizado por profissional habilitado, considerando história clínica, exame físico, exposição ocupacional e outros fatores relevantes.
No frigorífico, a prevenção deve ocorrer antes do aparecimento de sintomas. Esperar que vários trabalhadores apresentem dor para modificar o processo representa uma abordagem tardia.
Fatores físicos
- ▸repetição;
- ▸força;
- ▸posturas extremas;
- ▸compressão localizada;
- ▸vibração;
- ▸frio;
- ▸movimentação de cargas;
- ▸contato com superfícies rígidas.
Fatores organizacionais
- ▸ritmo excessivo;
- ▸metas incompatíveis com a capacidade operacional;
- ▸baixa autonomia;
- ▸pausas insuficientes;
- ▸falta de alternância;
- ▸dimensionamento inadequado;
- ▸horas extras frequentes;
- ▸pressão por produtividade;
- ▸comunicação deficiente;
- ▸treinamento insuficiente.
Fatores psicossociais
A pressão contínua, a falta de previsibilidade, conflitos, assédio, baixa participação nas decisões e medo de relatar sintomas podem influenciar a percepção de dor, a recuperação e a adesão às medidas preventivas.
A avaliação desses fatores deve ser conduzida com metodologia apropriada, confidencialidade e participação de profissionais competentes.
06AEP e AET em frigoríficos
A Avaliação Ergonômica Preliminar é uma etapa de identificação e análise inicial das situações de trabalho. Ela pode indicar que medidas simples são suficientes ou demonstrar a necessidade de uma investigação aprofundada.
A Análise Ergonômica do Trabalho é mais detalhada e deve examinar o trabalho real, não apenas o procedimento escrito. Pode incluir:
1. análise documental;
2. entrevistas;
3. observação em diferentes turnos;
4. filmagem técnica, quando autorizada;
5. análise de ciclos;
6. avaliação de posturas;
7. estimativa ou medição de força;
8. estudo de alcances;
9. avaliação de ferramentas;
10. análise de pausas;
11. verificação de rodízios;
12. avaliação de fatores ambientais;
13. construção de recomendações;
14. validação das soluções com os trabalhadores.
Uma AET consistente deve relacionar o problema identificado à medida corretiva. Recomendações genéricas, como “orientar postura” ou “realizar alongamento”, não são suficientes quando a causa está no projeto da linha.
07Hierarquia de controles
As medidas devem seguir uma lógica de prioridade.
1. Eliminação do risco
Sempre que possível, eliminar etapas desnecessárias, reduzir manipulações e retirar tarefas que não agregam valor.
2. Substituição
Substituir ferramentas, materiais, processos ou métodos por alternativas menos exigentes fisicamente.
3. Medidas de engenharia
São geralmente mais eficazes porque atuam na fonte do risco:
- ▸ajustar altura de bancadas;
- ▸reposicionar esteiras;
- ▸instalar plataformas;
- ▸reduzir alcances;
- ▸automatizar movimentações;
- ▸utilizar dispositivos de apoio;
- ▸melhorar iluminação;
- ▸adequar ferramentas;
- ▸instalar sistemas de transporte;
- ▸diminuir necessidade de torção;
- ▸criar suportes reguláveis.
4. Medidas administrativas
Incluem:
- ▸alternância de tarefas;
- ▸pausas;
- ▸adequação de efetivo;
- ▸treinamento;
- ▸manutenção;
- ▸controle de horas extras;
- ▸revisão de metas;
- ▸acompanhamento de indicadores.
5. Equipamentos de proteção individual
Os EPIs são importantes, mas não substituem controles de engenharia e organização. Luvas, aventais, botas, proteção térmica e demais equipamentos devem ser selecionados conforme riscos específicos e possuir Certificado de Aprovação quando aplicável.
08Pausas e alternância de tarefas
A pausa não deve ser tratada como concessão informal ou mecanismo de punição. Ela precisa estar prevista no planejamento da atividade e ser compatível com a exigência física, cognitiva e térmica.
A alternância também deve ser tecnicamente planejada. Trocar o trabalhador de uma tarefa repetitiva para outra tarefa igualmente repetitiva não reduz necessariamente o risco.
Um rodízio adequado pode alternar:
- ▸grupos musculares;
- ▸exigência de força;
- ▸postura;
- ▸intensidade;
- ▸uso de ferramentas;
- ▸demanda visual;
- ▸exposição ao frio;
- ▸responsabilidade operacional.
09Ferramentas e facas
A faca é um dos principais instrumentos de trabalho em muitas operações. Uma ferramenta inadequada pode aumentar a força necessária, reduzir a precisão e elevar o risco de acidentes e distúrbios musculoesqueléticos.
A seleção deve considerar:
- ▸tamanho da mão;
- ▸formato do cabo;
- ▸material e aderência;
- ▸peso;
- ▸equilíbrio;
- ▸ângulo de uso;
- ▸compatibilidade com a tarefa;
- ▸facilidade de higienização;
- ▸manutenção e afiação;
- ▸uso com luvas.
A capacitação deve abordar o uso seguro, a manutenção, o armazenamento e os sinais de desgaste.
010Organização do PGR conforme a NR-1
A NR-1 estabelece disposições gerais e diretrizes para o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. No frigorífico, os riscos ergonômicos devem ser identificados, avaliados e controlados dentro do gerenciamento de riscos ocupacionais.
O inventário de riscos deve representar as condições reais da empresa. Isso inclui setores, funções, grupos de exposição, tarefas, fontes de risco, medidas existentes e prioridades de intervenção.
O plano de ação deve definir:
- ▸medida necessária;
- ▸responsável;
- ▸prazo;
- ▸recurso;
- ▸critério de conclusão;
- ▸forma de verificação;
- ▸evidência documental.
011eSocial e o evento S-2240
O S-2240 é o evento do eSocial destinado ao registro das condições ambientais do trabalho, incluindo informações relacionadas à exposição a agentes nocivos para fins previdenciários, conforme os leiautes e regras vigentes.
É importante não apresentar o S-2240 como um formulário geral para registrar todos os riscos ergonômicos. A existência de risco ergonômico não significa automaticamente que haverá informação de agente nocivo no S-2240 ou direito à aposentadoria especial.
A empresa deve avaliar, com sua equipe de SST e contabilidade/previdência, quais informações são aplicáveis ao caso concreto. A documentação ergonômica — AEP, AET, inventário de riscos, plano de ação e registros de acompanhamento — pode ser relevante para demonstrar o gerenciamento realizado, mas não substitui os eventos específicos exigidos pelo eSocial.
Também devem ser observados, conforme a situação:
- ▸S-2210, Comunicação de Acidente de Trabalho;
- ▸S-2220, monitoramento da saúde